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"Prefácio
Poesia e magia
Eu li “Caixinha
de Segredos”
e fiquei em dúvida se me deparava com mágica misturada com poesia ou se com
poesia repleta de mágica.
É tão
interessante notar como a autora Odete Ronchi Baltazar recomeça, sempre com
nuances novas, os poemas dela, na maioria românticos. Ela que diz ter “... a
sede e a água, a frase e o ponto...” (Porque estou feliz), logo nos incita a
querer “a caneca e o café”, no saborear de tão belos poemas. A verdade é que,
na medida em que esta poetisa da belíssima Florianópolis – a ilha da magia, como
ela sempre diz - nos convida a passear pela poesia, vai nos retirando um pouco
da nossa própria ilha. Este comentário vem também a proposto da poema “Ilhada”:
“... quantas
vezes nos sentimos ilhados,/ incapazes de construir um barco... / que nos
transporte à outra margem...”.
Em “Às
vezes me pinto ave”, a autora se confessa sem coragem para sair do chão, embora
pronta para o voo. Mas quem a lê sabe: ela traz dentro de si, e por conseguinte,
nas poesias com que nos presenteia nesta “Caixinha de Segredos”, a
amplidão dos voos que diz não levantar. E não importa que a poesia doa, desde
que na folha branca e fortemente convidativa ao poema, se assente o resultado do
revirar dos dias, e até mesmo o de uma dolorida saudade.
Há perfume nesta “Caixinha
de Segredos”. Há perfumes e há cheiros. Qual a diferença? Veja em “Faro”,
onde embora a poeta fale em sândalo e jasmim, diz mesmo é de cheiros, do “teu
cheiro”, numa clara alusão ao cheiro do homem amado. O cheiro também é
citado em outros poemas: “Eu, em ti...” “De jasmim”, “Mesmo assim” e em
“Entardecer”, evidência da sensualidade na escrita de Odete, o que se faz
presente em outros poemas. Então do que falaria este verso? “... rimo com
você sob os lençóis da tarde...” (in: Vadiagem). Que beleza! Poucos diriam
assim tão liricamente.
O aspecto simbiótico do amor
também é visto na poesia de Odete: “... quando nos separamos / dividimos os
dois/ - não sobra nenhum...” (in: Divisão de bens”). O senso de humor, idem,
principalmente ao descobrir – e usar – uma palavra sem significado: Absconso.
E como a autora gosta das palavras, mesmo no silêncio elas têm a força da voz ou
de uma oração: “... e enquanto as palavras dormem, / seus significados /
entorpecem minha alma / e me livram de todo o mal...” (Entre silêncios e
alfazemas). Mas quando é a poeta quem silencia, a natureza que se encarrega de
falar por ela: “...sei do vento que passa nervoso, toma tento,/ e corre a me
sussurrar...”. (De saberes).
Eu fiquei muito bem
impressionada com o poema “Tarja preta”, pelo realismo ali muito bem descrito, e
onde no final a autora diz: “...eu vi! Eu vi tudo / mas fiz que não vi,
não...”, escancarando a condição imperfeita do ser humano frente à dureza da
vida.
Eu já havia comentado em
poucas linhas, na orelha de um outro livro da Odete, o Só Poesias, a
respeito do que eu chamei de “poeta-menina”. Pois essa condição reaparece nos
poemas que ora ela apresenta em “Caixinhas de Segredos”:“... brinco de
ser menina,/ pequena jóia em teus dias...”. (Idolatria), e “... brinquei
tanto de esconde-esconde / que não conseguiste me encontrar...” (Brincadeira
fora de hora). O mesmo vemos também no poema “Paixão in blue”,
porque o amor, poeticamente falando, às vezes é mesmo uma grande brincadeira. O
amor e outros sentimentos humanos. Não disse o Fernando Pessoa que o poeta é um
fingidor?
No final do livro, uma poesia
mais condensada – Poetrix -, algo mais voltada para a natureza, eu diria mesmo,
“As árvores nuas / exibem silhuetas/ de provocar inveja” (Outono); e “Meus
versos tortos / fazem arco-íris/ para os meus dias” (Cores).
Persiste a pergunta: seria
mágica misturada com poesia, ou poesia repleta de mágica? Importa dizer agora,
no entanto, que a poetisa Odete tem o poder de nos tirar da nossa própria ilha e
nos transportar até o outro lado, mais exatamente pra dentro de nós mesmos.
Cissa de Oliveira
Campinas-SP. - Março/2009

Autora: Odete Ronchi Baltazar
150 páginas - 15 X 21 cm - Editora AVBL
ISBN
978-85-98219-45-5
R$ 25,00


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