PALAVRAS AO LEITOR
Ao me envolver nestas pesquisas DOS BUGRES
AOS PRETOS, me vi, de repente, retornando no tempo, indo parar em minha
terra natal, nas aulas de português do curso ginasial ministradas pelo professor
Bruno Prass.
Naquele tempo distante tive que decorar
I-JUCA PIRAMA, de Gonçalves Dias, inteirinho. Quem conhece o poema sabe que
se trata de centenas de versos distribuídos em 10 partes. E, jamais esquecerei,
da hora, quando o professor me chamou, solicitando que declamasse os versos 1 e
2 da parte IV. Vibrei muito... Eram versos que haviam tocado bem fundo a minha
alma e já fui dizendo: “Meu canto de morte,/ Guerreiros, ouvi:/ Sou filho das
selvas,/ Nas selvas cresci;/ Guerreiros, descendo/ Da tribo tupi.”.
Já no vale do rio Três Forquilhas, me
encontro sentado diante da figueira que fala. Perguntei a ela a respeito DOS
BUGRES AOS PRETOS. Ouvi nomes de guerreiros onde apenas muda o nome da tribo
e dos guerreiros. A figueira fala a respeito de AIVUPORA, cacique de uma tribo
da grande nação caingangue e sou colocado diante do guerreiro Faustino...
“(...) Da tribo pujante,/ Que agora anda errante/ Por fado inconstante/ (...) E
os campos talados,/ E os arcos quebrados,/ E os piagas coitados/ Sem seus
maracás;/ E os meigos cantores,/ servindo a senhores,/ Que vinham traidores,/
Com mostras de paz./ (...)”. (Gonçalves Dias em I-Juca-Pirama).
Nestas alturas da minha pesquisa eu até
poderia afirmar, com base em A inquietação da Mente de Fahed Daher
- meu confrade na AVBL – que escreveu: “(...) Há um braseiro/ nas seculares
forças das heranças/ e nas crepitações e nos luzeiros/ de tanta inquietação das
esperanças./ É tanta singeleza o mundo inteiro/ aos olhares de Deus e suas
mudanças,/ mas nosso olhar se perde num terreiro/ (aldeia de índios e num
terreiro de escravos...) de achar tão pouco e ter (e mesmo assim ver)
tanta pujança (...)”.
Os meus neurônios ardem da vontade de
encontrar toda essência da verdade e exultam, na ânsia de saber, de descobrir...
E, de poder contar a todos, as histórias ouvidas e transmitidas pela figueira
que fala e que revela os tempos dos nossos ancestrais... Penso que o nosso povo
não deve perder as suas bases históricas. Isto significaria a perda total da sua
memória. Isto significaria atraso e retrocesso, sem retorno.
Por isto a minha mente não consegue
descansar...
Já são completados agora quase quarenta anos
de pesquisa e, eu gostaria de ver a minha obra da Coleção de Memórias da
Figueira finalmente concluída.
Estou feliz pelo fato de poder entregar aos
leitores DOS BUGRES AOS PRETOS, o 3º volume da Coleção das Memórias da
Figueira, lapidado e concluído. É a história de duas raças ou, porque não dizer,
é a história de inúmeras raças, que viveram ou que ainda vivem, a tragédia da
escravidão, de extermínio e morte. Mas eles deixaram marcas indeléveis, que
devem receber um registro, a fim de que possam se tornar num ensinamento e um
alerta para a posteridade.
Desejamos a todos, leitura prazerosa,
conforme o voto latino: “Lectori salutem!” (ao leitor, bom proveito!).
ITATI – RS, 7 de setembro de 2009.
Elio Eugenio Müller
Membro da Academia Virtual Brasileira de
Letras – AVBL